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sábado, 31 de outubro de 2015

time has come

Às vezes é preciso sair da zona de conforto. 
Depois de uma manhã particularmente difícil, exaustiva, tirei todos aqueles papéis da gaveta. Chega de procrastinar.

É das coisas que matam, não das que fortalecem... e das coisas que eu poderia ter resolvido anos atrás, mas não. Certas coisas são difíceis, mas por mais convidativa que a inércia me seja, ela me intoxica e rouba, em todas as dificuldades cotidianas e esporádicas, nas frustrações acumuladas e em todo esse desânimo generalizado e crescente.

Houveram coisas mais complicadas, dias mais difíceis, e certamente já tive uma cabeça mais mórbida e infeliz. Talvez seja hora de equilibrar as coisas, todas elas. Minha mente (finalmente) sã não se sente confortável com todas essas limitações.

Uma hora a gente cansa. 
Até de estar cansado...

domingo, 2 de agosto de 2015

quando já deu

"There's nothing left in this place but a reason to leave"

É difícil romper barreiras, vícios, hábitos, preconceitos, e, principalmente, vínculos tóxicos. Ainda assim, nada precisa ser tão dramático quanto uma música de Damien Rice, ou talvez seja apenas essa minha recente e assustadora frieza e distanciamento falando. 

Todo mundo tem um limite, e como uma mola desgastada, talvez eu só esteja menos elástica, paciente, tolerante, e disposta aos outros. Não tenho motivos ou disposição para abraçar causas perdidas.

Eventualmente, a paciência acaba. Amigos devem ser compreensivos e dispostos, mas há limites, bem claros, que indicam que não há o que se fazer, apenas abandonar o barco.

Rupturas são sempre problemáticas, eventualmente até tristes, mas quando o único sentimento além da fadiga é o alívio, tudo que se pode fazer é trancar a porta e ir embora com a sensação de dever cumprido.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

sobre pontuação e ritos de passagem

Outro dia uma conhecida me disse que o fim de algo é sempre o começo de outra coisa, ou algo desse gênero. No fim das contas a vida é isso: uma sequência de começos e finais. Ao que tudo indica, pessoas precisam de pontuação. Ajuda a não se perder em suas próprias vidas. 

Anos atrás me julguei grande demais para blogs existencialistas. Devem existir dúzias iniciadas por mim perdidas pela internet. Agora aqui, aos 29, começo de novo, do zero, um blog e uma vida. Porque assim como precisamos da pontuação, refletir sobre si mesmo, situações vividas e emoções sentidas, é uma necessidade humana.  

Outro dia me disseram que existem duas de mim. Não encaro assim. Uma pessoa tem reações diferentes, diante de situações diferentes. O mesmo ser humano que pode ser doce e afável quando se sente seguro, torna-se agressivo se provocado. Ninguém é 100% racional, congruente, linear e previsível. Às vezes desperto meu Cerberus interior, em outros momentos, alguns acham que é um "emo" que acorda. 

Acredito muito no Modelo de Kübler-Ross. Ao menos para mim, com raras variações, em situações extremas de perda ou mudanças drásticas ocorridas contra minha vontade, quase sempre passo por todos os cinco estágios. Tenho também meus próprios ritos de passagem. 

Há quem beba como se não houvesse amanhã - ou esperando que não haja.  Eu tomo remédios... e uma dose de uma bebida memorável. Depois me deito, durmo, e de repente, o dia seguinte chega - aquele pastoso, lento, nonsense. Não é que quisesse morrer. Não é pelo drama, não é um teatro. Não é para chamar a atenção. Não, é apenas um rito. Não é pela morte, não é pela bad trip do dia seguinte. É pela purificação. É para pontuar. É como meses de bebedeira que pontuam lentamente a vida de outras pessoas que conheço. 

O dia pastoso, que deixa vagas e imprecisas lembranças, leva parte do peso. O dia pastoso marca o fim da negação, e às vezes é suficiente para levar consigo a raiva também, ou ao menos a maior parte dela. O dia pastoso é um momento reticente, a se findar definitivamente na manhã seguinte. O dia pastoso mostra exatamente isso: existe amanhã, e talvez amanhã, você sequer irá se lembrar que hoje existiu, ou como foi exatamente. Ainda assim, o dia pastoso preserva a lembrança da bebida, por isso ela deve ser especial, pois precisa merecer ser lembrada.

Na manhã seguinte a esse dia, eu acordo abandonando não apenas ele, mas todos os que vieram antes. Ainda que se sigam eventuais repentes de raiva, tentativas de negociação, ou dias de depressão, a aceitação já foi plantada, e cresce um pouco a cada revés. 

Esse rito de passagem, esse dia pastoso, parece um sinal de fraqueza, mas todas as vezes, foi através dele que alcancei a força necessária para seguir a diante. É pegar a confusão, o turbilhão, os conflitos, o desespero, as vontades inconsequentes,  e forçá-los a encontrar seu ponto final, sem mais delongas. É matar o que estava me matando, não matar a mim mesma.