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domingo, 2 de agosto de 2015

quando já deu

"There's nothing left in this place but a reason to leave"

É difícil romper barreiras, vícios, hábitos, preconceitos, e, principalmente, vínculos tóxicos. Ainda assim, nada precisa ser tão dramático quanto uma música de Damien Rice, ou talvez seja apenas essa minha recente e assustadora frieza e distanciamento falando. 

Todo mundo tem um limite, e como uma mola desgastada, talvez eu só esteja menos elástica, paciente, tolerante, e disposta aos outros. Não tenho motivos ou disposição para abraçar causas perdidas.

Eventualmente, a paciência acaba. Amigos devem ser compreensivos e dispostos, mas há limites, bem claros, que indicam que não há o que se fazer, apenas abandonar o barco.

Rupturas são sempre problemáticas, eventualmente até tristes, mas quando o único sentimento além da fadiga é o alívio, tudo que se pode fazer é trancar a porta e ir embora com a sensação de dever cumprido.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

chasing waterfalls

É fácil ficar perdido.
Lembro de ficar embaixo de uma cachoeira gelada no outono quando criança. Não era confortável,então fechei os olhos, e por alguma razão obscura, continuei lá.  A sensação era a mesma desde então.

Parcialmente ouvindo um certo balburdio ao longe, mas principalmente aquela forte queda sobre minha cabeça, num som que não fazia sentido, não formava palavra, mas de certa forma, se comunicava e dizia "fique aqui". Era frio, desconfortável, angustiante, e contraditório. Era calmo e ruidoso, solitário, pesado. Talvez se eu gritasse, ninguém ouviria. Uma similaridade assombrosa com tudo do lado de fora, mas ali, aquele momento, aquele espaço, era meu.E eu poderia ficar ali, talvez dormir, ler um livro, fechar os olhos e ignorar o mundo.

Eventualmente eu precisaria sair da água gelada. Enfrentar o mundo, as pessoas, a algazarra, a vida.Eu só não sabia bem como, e aquela queda sobre minha cabeça, o peso sobre meus ombros, e aquele barulho alto parecia também acompanhado de um murmúrio: "Fique. Lá não há nada para você".... E lá fiquei, por tempo demais, hesitante, pensativa, de olhos fechados. 

terça-feira, 24 de junho de 2014

quando passa

Foi como receber um abraço de um completo desconhecido.
Como alguém que nunca vi na vida fingir se preocupar comigo para fazer uma média e conseguir algo de mim, enquanto eu me perguntava como aquilo poderia ser pertinente.

Pra certas coisas não há volta. E ainda que houvesse, não seria batendo à minha porta no meio da noite aos prantos.

É uma forma estranha e até triste de constatar como tudo passa.  Esse desespero já não era meu há muito tempo.
Tudo ficou pra trás, mesmo insistindo em continuar debaixo do meu nariz. Mesmo a raiva, a vontade de gritar, ou antes disso a angústia, ou antes a mágoa, e antes o amor. É curioso não encontrar sequer um vazio, nem sob estímulos e provocações dramáticas.

Não há apelo emocional capaz de demover uma consciência tranquila, uma alma em paz com um passado violento enterrado.

Fim.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

quando álvaro chama meu nome

Ele chama, de vez em quando. Cada vez menos... Cada vez mais difícil de ouvir.

Numa inquietude, arrastada ou galopante, a certeza é apenas aquela de que Alvaro repete para mim que certamente falta-me apoio na inteligência, e ainda que todas as horas pareçam minhas, elas nunca serão. Há dias com 1440 horas. Há dias com 24 minutos.

Entre conduções imprudente numa rodovia expressa, finais de semana de silêncio e sossego, uma divagação e outra, uma indiferença aqui, uma contingência alí, um compromisso perdido, um convite declinado, Álvaro chama, mas sentir tudo de todas as maneiras, viver tudo de todos os lados, às vezes cansa. Álvaro grita, e eu tapo os ouvidos, encolhida no canto do quarto.

Talvez um dia Álvaro desista.

Referência: A Passagem das Horas