Foi como receber um abraço de um completo desconhecido.
Como alguém que nunca vi na vida fingir se preocupar comigo para fazer uma média e conseguir algo de mim, enquanto eu me perguntava como aquilo poderia ser pertinente.
Pra certas coisas não há volta. E ainda que houvesse, não seria batendo à minha porta no meio da noite aos prantos.
É uma forma estranha e até triste de constatar como tudo passa. Esse desespero já não era meu há muito tempo.
Tudo ficou pra trás, mesmo insistindo em continuar debaixo do meu nariz. Mesmo a raiva, a vontade de gritar, ou antes disso a angústia, ou antes a mágoa, e antes o amor. É curioso não encontrar sequer um vazio, nem sob estímulos e provocações dramáticas.
Não há apelo emocional capaz de demover uma consciência tranquila, uma alma em paz com um passado violento enterrado.
Fim.
terça-feira, 24 de junho de 2014
quinta-feira, 24 de abril de 2014
vinte dias
Tem coisas que não cabem em vinte dias.
Voltar à Lagoa do Peri, subir a Serra... Não coube, e provavelmente ficou pra outra vida.
Mas em vinte dias cabe muita coisa. Como aquele livro de Toulouse Lautrec, posto de forma gentil e silenciosa sobre o parapeito da sacada. Como dormir duas vezes assistindo Donnie Darko, falas pausadas numa voz delicada, risos leves e tardes lentas num restaurante à beira-mar, um passeio silencioso de carro madrugada à dentro, com aquela playlist de pouco mais de três horas. Em vinte dias cabem tantas três horas, que enquanto você decorou as músicas que não conhecia, eu encontrei coisas perdidas há muito tempo numa das vezes que tocou Wild Horses.... e até aprendi o caminho de sua casa sem o GPS repetir freneticamente "curva suave à direita".
Certas coisas não cabem em vinte dias. Mas deu tempo de trazer O Lobo da Estepe, a Norah Jones, Tolouse Lautrec... te deixar o Paganini... e ser bom.
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
quando álvaro chama meu nome
Ele chama, de vez em quando. Cada vez menos... Cada vez mais difícil de ouvir.
Numa inquietude, arrastada ou galopante, a certeza é apenas aquela de que Alvaro repete para mim que certamente falta-me apoio na inteligência, e ainda que todas as horas pareçam minhas, elas nunca serão. Há dias com 1440 horas. Há dias com 24 minutos.
Entre conduções imprudente numa rodovia expressa, finais de semana de silêncio e sossego, uma divagação e outra, uma indiferença aqui, uma contingência alí, um compromisso perdido, um convite declinado, Álvaro chama, mas sentir tudo de todas as maneiras, viver tudo de todos os lados, às vezes cansa. Álvaro grita, e eu tapo os ouvidos, encolhida no canto do quarto.
Talvez um dia Álvaro desista.
Referência: A Passagem das Horas
Numa inquietude, arrastada ou galopante, a certeza é apenas aquela de que Alvaro repete para mim que certamente falta-me apoio na inteligência, e ainda que todas as horas pareçam minhas, elas nunca serão. Há dias com 1440 horas. Há dias com 24 minutos.
Entre conduções imprudente numa rodovia expressa, finais de semana de silêncio e sossego, uma divagação e outra, uma indiferença aqui, uma contingência alí, um compromisso perdido, um convite declinado, Álvaro chama, mas sentir tudo de todas as maneiras, viver tudo de todos os lados, às vezes cansa. Álvaro grita, e eu tapo os ouvidos, encolhida no canto do quarto.
Talvez um dia Álvaro desista.
Referência: A Passagem das Horas
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
burning bridges
Certas expressões não são passíveis de tradução. Me sinto numa piscina, olhos fechados. Alguém gritando sobre a superfície. "Eu não consigo te ouvir". E isso significa paz.
Me pareceu uma vida de demandas, gritos e coisas quebrando em câmera lenta.
Numa esfera medieval, do lado de cá, vejo agora distante e turva uma vida de gritos e demandas. Tudo isso e muito mais sob uma densa e tóxica fumaça, um cheiro de querosene ou dinamite, entre escombros sobre um abismo onde havia uma ponte.
Não há mais.
terça-feira, 24 de setembro de 2013
sobre pontuação e ritos de passagem
Outro dia uma conhecida me disse que o fim de algo é sempre o começo de outra coisa, ou algo desse gênero. No fim das contas a vida é isso: uma sequência de começos e finais. Ao que tudo indica, pessoas precisam de pontuação. Ajuda a não se perder em suas próprias vidas.
Anos atrás me julguei grande demais para blogs existencialistas. Devem existir dúzias iniciadas por mim perdidas pela internet. Agora aqui, aos 29, começo de novo, do zero, um blog e uma vida. Porque assim como precisamos da pontuação, refletir sobre si mesmo, situações vividas e emoções sentidas, é uma necessidade humana.
Outro dia me disseram que existem duas de mim. Não encaro assim. Uma pessoa tem reações diferentes, diante de situações diferentes. O mesmo ser humano que pode ser doce e afável quando se sente seguro, torna-se agressivo se provocado. Ninguém é 100% racional, congruente, linear e previsível. Às vezes desperto meu Cerberus interior, em outros momentos, alguns acham que é um "emo" que acorda.
Acredito muito no Modelo de Kübler-Ross. Ao menos para mim, com raras variações, em situações extremas de perda ou mudanças drásticas ocorridas contra minha vontade, quase sempre passo por todos os cinco estágios. Tenho também meus próprios ritos de passagem.
Há quem beba como se não houvesse amanhã - ou esperando que não haja. Eu tomo remédios... e uma dose de uma bebida memorável. Depois me deito, durmo, e de repente, o dia seguinte chega - aquele pastoso, lento, nonsense. Não é que quisesse morrer. Não é pelo drama, não é um teatro. Não é para chamar a atenção. Não, é apenas um rito. Não é pela morte, não é pela bad trip do dia seguinte. É pela purificação. É para pontuar. É como meses de bebedeira que pontuam lentamente a vida de outras pessoas que conheço.
O dia pastoso, que deixa vagas e imprecisas lembranças, leva parte do peso. O dia pastoso marca o fim da negação, e às vezes é suficiente para levar consigo a raiva também, ou ao menos a maior parte dela. O dia pastoso é um momento reticente, a se findar definitivamente na manhã seguinte. O dia pastoso mostra exatamente isso: existe amanhã, e talvez amanhã, você sequer irá se lembrar que hoje existiu, ou como foi exatamente. Ainda assim, o dia pastoso preserva a lembrança da bebida, por isso ela deve ser especial, pois precisa merecer ser lembrada.
Na manhã seguinte a esse dia, eu acordo abandonando não apenas ele, mas todos os que vieram antes. Ainda que se sigam eventuais repentes de raiva, tentativas de negociação, ou dias de depressão, a aceitação já foi plantada, e cresce um pouco a cada revés.
Esse rito de passagem, esse dia pastoso, parece um sinal de fraqueza, mas todas as vezes, foi através dele que alcancei a força necessária para seguir a diante. É pegar a confusão, o turbilhão, os conflitos, o desespero, as vontades inconsequentes, e forçá-los a encontrar seu ponto final, sem mais delongas. É matar o que estava me matando, não matar a mim mesma.
Assinar:
Postagens (Atom)